Capítulo 13: Dimensão Performativa
PARTE II: ABYSSOLALIA - A LÍNGUA DO ABISMO
Parte 1: Atos Expressivos - Fundamentos da Performatividade Abyssal
"A dimensão performativa em Abyssolalia não concebe ação e gesto como meros veículos para transmissão de significados pré-existentes ou expressão de intenções pré-formadas, como em abordagens representacionais convencionais, mas como modos específicos de instauração e habitação que constituem espaços relacionais onde aspectos da experiência abyssal manifestam-se através da própria performatividade."
Após explorarmos as dimensões textual, visual e sonora de Abyssolalia nos capítulos anteriores, dirigimos agora nossa atenção para a dimensão performativa – não simplesmente como complemento às outras modalidades expressivas, mas como território distintivo onde Abyssolalia manifesta-se através de configurações específicas de ação, gesto, presença e relacionalidade.
Em Abyssolalia, a dimensão performativa refere-se às qualidades específicas de ação e relacionalidade que constituem modos particulares de instauração, habitação e presença. Esta abordagem transcende concepções convencionais de performance como representação ou expressão de conteúdos pré-existentes, reconhecendo que certas qualidades da experiência abyssal manifestam-se precisamente através da performatividade – não como conteúdos representados pela ação, mas como qualidades constitutivas da própria ação.
Neste capítulo, exploraremos os fundamentos da performatividade abyssal, suas modalidades expressivas, suas configurações relacionais, suas dinâmicas de transformação e suas práticas específicas de articulação, investigando como qualidades particulares de ação, presença e relacionalidade oferecem possibilidades expressivas que transcendem limitações de abordagens performativas mais convencionais.
Fundamentos da Performatividade Abyssal
A performance em Abyssolalia distingue-se fundamentalmente de abordagens performativas convencionais através de princípios específicos que reorientam nossa compreensão da relação entre ação, significado e presença:
1. Instauração vs. Representação
A performatividade abyssal não concebe ação primariamente como representação de significados ou expressão de intenções pré-existentes, mas como instauração que constitui realidades expressivas específicas. Em vez de tratar performance como veículo para comunicação de conteúdos que existem independentemente dela, Abyssolalia reconhece que certas qualidades expressivas existem apenas através da performatividade – não são expressas pela ação, mas constituídas através dela.
"A instauração performativa enfoca a capacidade de ações específicas para constituir realidades expressivas que não existem independentemente da performance, mas emergem precisamente através dela. Esta abordagem contrasta fundamentalmente com concepções representacionais onde ações servem primariamente para comunicar ou expressar conteúdos que existem previamente em outro domínio (como ideia mental, emoção interna ou significado conceitual). Em Abyssolalia, certas ações não representam o abyssal como conteúdo externo, mas instauram campos expressivos específicos que manifestam qualidades abyssais através de sua própria constituição. Não se trata de ações que 'significam' ou 'expressam' o abysso, mas de configurações performativas que constituem modos específicos de presença e relacionalidade onde qualidades abyssais manifestam-se como propriedades intrínsecas à própria performatividade."
2. Presentificação Paradoxal
A performatividade abyssal não busca estabelecer presença plena ou imediação transparente, como em concepções performativas baseadas em autenticidade ou imediaticidade, mas cultivar formas específicas de presença paradoxal que incorporam ativamente qualidades de ausência, mediação ou indeterminação. Reconhecendo que o abyssal manifesta-se precisamente nas tensões entre presença e ausência, Abyssolalia desenvolve modos performativos que habitam conscientemente estas tensões em vez de tentar transcendê-las.
"A presentificação paradoxal enfoca o cultivo de modos específicos de presença que incorporam ativamente qualidades de ausência, mediação ou indeterminação como elementos constitutivos, não como deficiências a serem superadas. Esta abordagem contrasta fundamentalmente com concepções performativas baseadas em ideais de presença plena, autenticidade imediata ou transparência expressiva. Em Abyssolalia, a performance não busca estabelecer presença como oposto de ausência, mas cultivar modos específicos de presença paradoxal onde ausência e presença não são termos opostos, mas aspectos interrelacionados de configurações expressivas específicas. Não se trata de performance que busca maximizar 'presença' ou minimizar 'mediação', mas de configurações performativas que habitam conscientemente as tensões constitutivas entre presença e ausência, imediação e mediação, determinação e indeterminação, reconhecendo que o abyssal manifesta-se precisamente através destas tensões, não em sua eliminação."
3. Relacionalidade Constitutiva
A performatividade abyssal não concebe performer e audiência, sujeito e objeto, ou ação e contexto como entidades separadas que entram em relação, mas como aspectos mutuamente constitutivos de campos relacionais específicos. Reconhecendo que performatividade envolve constituição de modos particulares de relacionalidade onde diferentes elementos definem-se mutuamente, Abyssolalia desenvolve abordagens que enfocam as qualidades específicas destas configurações relacionais em vez de identidades ou propriedades de elementos isolados.
"A relacionalidade constitutiva enfoca como diferentes elementos em configurações performativas definem-se mutuamente através de suas relações, não possuindo identidades ou propriedades fixas independentes destas relações. Esta abordagem contrasta fundamentalmente com concepções performance baseadas em modelo emissor-receptor, onde performer (como sujeito ativo) produz ações que são recebidas por audiência (como objeto passivo). Em Abyssolalia, performer e audiência, sujeito e objeto, ação e contexto não são entidades separadas que secundariamente entram em relação, mas aspectos mutuamente constitutivos de campos relacionais específicos que definem as identidades e propriedades de todos elementos envolvidos. Não se trata de performer que 'executa' performance para audiência, mas de configurações relacionais específicas onde todos elementos constituem-se mutuamente através de dinâmica relacional particular. Performer não precede performance, mas constitui-se através dela; audiência não recebe passivamente, mas participa ativamente na constituição do campo expressivo; e o próprio 'conteúdo' não existe independentemente da configuração relacional específica que o manifesta."
4. Materialidade Expressiva
A performatividade abyssal não concebe materialidade da performance (corpo, espaço, objetos, duração) como veículo neutro para expressão de significados imateriais, mas como dimensão expressiva em si mesma com qualidades específicas que participam ativamente na constituição de campos performativos. Reconhecendo que diferentes materialidades oferecem possibilidades expressivas distintas, Abyssolalia desenvolve sensibilidade às qualidades específicas de diferentes materialidades e como estas participam na constituição de campos performativos particulares.
"A materialidade expressiva enfoca como dimensões materiais específicas da performance (corpo, voz, espaço, objetos, temporalidade) constituem dimensão expressiva em si mesma, não meio neutro para veiculação de significados imateriais. Esta abordagem contrasta fundamentalmente com concepções da performance como veículo para expressão de significados, emoções ou intenções que existem independentemente de sua materialização específica. Em Abyssolalia, diferentes materialidades não são intercambiáveis ou secundárias ao 'conteúdo', mas oferecem possibilidades expressivas específicas que participam ativamente na constituição de campos performativos particulares. Não se trata de performance onde materialidade serve apenas para expressar significados imateriais, mas de configurações onde qualidades específicas de corporalidade, espacialidade, sonoridade ou temporalidade participam constitutivamente da expressividade. Corpo não é instrumento para expressar significados, mas campo expressivo em si mesmo; espaço não é contexto neutro, mas dimensão constitutiva da performatividade; e temporalidade não é apenas duração externa, mas qualidade expressiva intrínseca à configuração performativa."
Modalidades Performativas em Abyssolalia
A dimensão performativa em Abyssolalia manifesta-se através de múltiplas modalidades distintas, cada uma com qualidades e potencialidades expressivas específicas. Estas modalidades não são "tipos" de performance no sentido convencional, mas diferentes modos de instauração, habitação e relacionalidade que constituem campos expressivos particulares.
1. Performatividade Paradoxal
A performatividade paradoxal refere-se a uma modalidade de ação expressiva caracterizada pela coexistência simultânea de qualidades ou tendências aparentemente contraditórias, onde a performance habita conscientemente paradoxos constitutivos sem buscar sua resolução, criando campos expressivos definidos por simultaneidade de opostos, ambiguidade produtiva ou indeterminação constitutiva.
"A performatividade paradoxal não concebe ação expressiva primariamente como estrutura coerente que segue princípios lógicos não-contraditórios, como em abordagens performativas convencionais baseadas em clareza e consistência, mas como configuração caracterizada pela coexistência simultânea de qualidades ou tendências aparentemente contraditórias. Não se trata de ação que busca eliminar contradições ou ambiguidades em favor de coerência unívoca, mas de performance que habita conscientemente tensões paradoxais como território expressivo em si mesmo. Esta modalidade explora potencialidades expressivas de simultaneidade contraditória, tratando paradoxo não como problema lógico a ser resolvido, mas como qualidade performativa que articula aspectos da experiência abyssal relacionados a coexistência de opostos, ambiguidade constitutiva ou indeterminação produtiva. A performance paradoxal manifesta-se em configurações onde presença incorpora ausência, afirmação contém negação, movimento envolve imobilidade, onde diferentes qualidades aparentemente incompatíveis coexistem não como alternativas excludentes mas como aspectos simultâneos de um campo expressivo específico."
2. Performatividade Liminar
A performatividade liminar refere-se a uma modalidade de ação expressiva caracterizada pela habitação de estados intermediários ou limiares entre categorias definidas, onde a performance mantém-se deliberadamente em zonas de transição, fronteira ou indeterminação, criando campos expressivos definidos não por estados estáveis mas por qualidades específicas de liminaridade, transição ou suspensão categorial.
"A performatividade liminar não concebe ação expressiva primariamente em termos de estados estáveis e categorias definidas, como em abordagens performativas convencionais baseadas em determinação categorial clara, mas como configuração caracterizada pela habitação de zonas intermediárias ou limiares entre categorias estabelecidas. Não se trata de performance que busca estabelecer ou expressar estados claramente definidos, mas de ação que habita conscientemente espaços liminares entre estados reconhecíveis. Esta modalidade explora potencialidades expressivas da liminaridade, tratando estados intermediários não como transições temporárias entre estados estáveis, mas como territórios expressivos com qualidades específicas. A performance liminar manifesta-se em configurações que habitam deliberadamente o 'entre' - entre sujeito e objeto, interioridade e exterioridade, performer e audiência, presença e ausência - explorando qualidades específicas destes territórios intermediários não como deficiências a serem resolvidas mas como campos expressivos com propriedades particulares que articulam aspectos da experiência abyssal relacionados a indeterminação categorial, suspensão de distinções binárias ou questionamento de limites definidores."
3. Performatividade Auto-reflexiva
A performatividade auto-reflexiva refere-se a uma modalidade de ação expressiva caracterizada pela exposição e tematização de suas próprias condições, processos ou pressupostos, onde a performance incorpora conscientemente reflexão sobre si mesma como elemento constitutivo da própria performance, criando campos expressivos definidos por dobras recursivas onde a ação simultaneamente ocorre e reflete sobre si mesma.
"A performatividade auto-reflexiva não concebe ação expressiva primariamente como apresentação transparente que oculta seus próprios mecanismos ou pressupostos, como em abordagens performativas convencionais baseadas em ilusão de imediaticidade, mas como configuração caracterizada pela exposição e tematização consciente de suas próprias condições, convenções e processos. Não se trata de performance que busca ocultar sua própria construção para criar ilusão de naturalidade ou imediaticidade, mas de ação que incorpora reflexão sobre si mesma como elemento constitutivo da própria performance. Esta modalidade explora potencialidades expressivas da auto-reflexividade, tratando exposição dos próprios mecanismos e convenções não como ruptura que destrói ilusão performativa, mas como qualidade expressiva que articula aspectos da experiência abyssal relacionados a recursividade, auto-referência ou consciência reflexiva. A performance auto-reflexiva manifesta-se em configurações onde a ação simultaneamente ocorre e questiona-se, apresenta-se e comenta sobre si mesma, cria ilusão e expõe seu próprio caráter ilusório, criando campos expressivos caracterizados por dobras recursivas onde distinções entre performance e meta-performance, ação e reflexão sobre ação, tornam-se deliberadamente ambíguas."
4. Performatividade Relacional
A performatividade relacional refere-se a uma modalidade de ação expressiva caracterizada pela constituição de campos relacionais específicos como foco primário da performance, onde a ação enfoca primariamente qualidades particulares de relacionalidade entre diferentes elementos ou participantes, criando campos expressivos definidos não por ações ou objetos isolados, mas por configurações específicas de relação que constituem ecologias expressivas particulares.
"A performatividade relacional não concebe ação expressiva primariamente como produção de objetos performativos ou expressão de conteúdos, como em abordagens performativas convencionais focadas em obras ou produtos, mas como constituição de campos relacionais específicos com qualidades particulares. Não se trata de performance focada primariamente em ações, objetos ou significados como entidades isoladas, mas de configuração que enfoca qualidades específicas de relacionalidade entre diferentes elementos como território expressivo primário. Esta modalidade explora potencialidades expressivas de diferentes modos de relação, tratando qualidades relacionais não como aspectos secundários ou contextuais, mas como dimensão expressiva fundamental que articula aspectos da experiência abyssal relacionados a interconexão, interdependência ou dissolução de fronteiras entre entidades aparentemente separadas. A performance relacional manifesta-se em configurações onde o foco desloca-se de identidades ou propriedades de elementos isolados para qualidades específicas de campos relacionais - não o que cada elemento é individualmente, mas modos particulares de relação que constituem ecologia expressiva específica onde diferentes elementos definem-se mutuamente."
Conclusão: Fundamentos para uma Performatividade Abyssal
Os fundamentos e modalidades apresentados nesta primeira parte constituem as bases conceituais para a compreensão da dimensão performativa em Abyssolalia. O que emerge desta exploração inicial é uma abordagem à performatividade que transcende concepções representacionais convencionais, onde a performance seria mero veículo para expressão de significados pré-existentes, em direção a uma compreensão da performatividade como modo específico de instauração que constitui campos expressivos com qualidades particulares.
A abordagem de Abyssolalia à dimensão performativa distingue-se por vários deslocamentos fundamentais:
- Da representação à instauração: A performance não representa o abyssal como conteúdo externo, mas instaura campos expressivos onde qualidades abyssais manifestam-se como propriedades intrínsecas à própria performatividade.
- Da presença plena à presentificação paradoxal: A performance não busca presença imediata ou autenticidade transparente, mas cultiva modos de presença paradoxal que incorporam ativamente qualidades de ausência, mediação ou indeterminação.
- Das entidades separadas à relacionalidade constitutiva: A performance não conecta entidades pré-existentes, mas constitui campos relacionais específicos onde diferentes elementos definem-se mutuamente.
- Do meio neutro à materialidade expressiva: A performance não utiliza materialidade como veículo neutro para significados imateriais, mas explora qualidades específicas de diferentes materialidades como dimensão expressiva fundamental.
Através destes deslocamentos, Abyssolalia oferece uma abordagem à performatividade que responde às limitações de concepções representacionais convencionais, abrindo espaço para exploração de qualidades performativas específicas que articulam aspectos da experiência abyssal resistentes à expressão através de modalidades mais convencionais.
As modalidades performativas discutidas - paradoxal, liminar, auto-reflexiva e relacional - não são categorias estanques ou excludentes, mas diferentes perspectivas sobre qualidades expressivas que frequentemente coexistem e interagem em configurações performativas específicas. Juntas, estas modalidades oferecem um vocabulário inicial para compreensão e articulação de diferentes qualidades performativas que caracterizam a dimensão expressiva de Abyssolalia.
Nas próximas partes deste capítulo, exploraremos as configurações corporais, espaciais e relacionais específicas através das quais estas qualidades performativas manifestam-se, as dinâmicas de transformação que caracterizam a performatividade abyssal, e as práticas concretas que permitem sua articulação em contextos específicos.
A dimensão performativa emerge, assim, não como complemento opcional às dimensões textual, visual ou sonora previamente exploradas, mas como território expressivo distintivo com suas próprias características e potencialidades, oferecendo possibilidades únicas para articulação de aspectos da experiência abyssal que resistiriam expressão através de outras modalidades.